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Afinal, para que serve uma mãe?


A figura da mãe é essencial na vida de todos nós e ocupa um espaço impossível de abarcar num pequeno texto, mas aqui ficam algumas reflexões.


Historicamente, as mães têm tido um papel fundamental no cuidado, educação e formação dos filhos e da família em geral. Este papel mais tradicional das mães tem evoluído ao longo do tempo, mudando a forma como as mães têm sido vistas e contribuindo para o desenvolvimento da sociedade como um todo.


Desde tempos imemoriais que as mães tem constituído o suporte de qualquer família, a pessoa que trata, nutre e cuida dos filhos e da família. Atualmente, podemos dizer com segurança que esta visão é um pouco redutora e limitada, tais são as diferentes e vastas contribuições que as mães trazem para a sociedade.


As mães são fundamentais em todas as áreas da vida moderna, incluindo a profissional, a social, a desportiva e a cultural. As mães trabalham em todas as profissões e campos imagináveis, são médicas e advogadas, professoras, empregadas de limpeza, polícias, cientistas e artistas. Lideram equipas, gerem empresas e fazem contribuições valiosas para a economia global.


As mães também são figuras importantes nas suas comunidades. Voluntariam-se para organizações sem fins lucrativos, ajudam nas escolas e apoiam os filhos em atividades extracurriculares. Ajudam, ainda, a preservar a cultura dos povos, transmitindo tradições e valores de geração em geração.


Não é, pois, de estranhar que as mães andem cansadas, diria mesmo, exaustas (o termo clínico é Burnout, e como é inglês parece sempre mais eloquente). Vejo isto frequentemente na minha clínica diária, onde contacto frequentemente com mães sobrecarregadas, ansiosas e deprimidas. E com razão, preocupado ficaria eu se elas andassem felizes e contentes com uma sociedade, família incluída, que as julga e pressiona por não terem tempo suficiente para cuidar da família, nuclear e alargada, por não serem suficientemente produtivas nas suas carreiras profissionais ou, inclusive, por não serem suficientemente femininas.


Muitas destas mães vêm ter comigo já com sintomas físicos e psicológicos significativos que impactam negativamente, não só a sua autoestima, como também os seus níveis de energia, o sono, alimentação, concentração e motivação. E culpam-se e julgam-se negativamente, e muito, como se a responsabilidade de não conseguirem ser “supermulheres” fosse delas e não de uma sociedade que as educa com expectativas irrealistas e como se vivêssemos, ainda, no séc. XIX, onde não era necessário aprender a encontrar um equilíbrio entre vida pessoal, profissional e familiar, onde não havia sequer escolha nem liberdade para o poder fazer. Hoje, existe escolha, existe liberdade, mas as mães de hoje continuam a ser educadas, ironicamente por outras mulheres, mães e avós, também elas educadas por outras mulheres, a colocarem sistematicamente as necessidades dos outros acima das suas, e a sentirem-se culpadas quando não o fazem.


Costumo dizer a estas minhas pacientes que o melhor tratamento para esta problemática não são comprimidos para adormecer as dores físicas e emocionais (embora por vezes sejam necessários para tratar problemas de insónia crónica), não são apelos dramáticos que caiem em ouvidos tísicos para que os outros mudem, não são autoflagelações internas, não é comer, fumar ou beber emocionalmente, não é punir o corpo diariamente no ginásio… nada disto, o melhor e mais eficaz remédio para que as mães se libertem de toda esta pressão e comecem, digo comecem, o seu processo de cura, encontra-se resumido numa pequena mas poderosa palavra de apenas três letras: NÃO!


Sei bem que é difícil, por mais razões do que linhas tenho aqui disponíveis para as descrever. Mas dizer “não” a tudo o que sentimos como tóxico para a nossa saúde física e psicológica é algo fundamental para a criação de um psiquismo resiliente e equilibrado, é por isso que as crianças adoram repetir essa palavra, porque lhes permite, pela primeira vez, ter controlo e decidir sobre as suas próprias vidas, permite-lhes dizer “eu existo independentemente de ti”, eu sou importante, eu também conto, eu mereço respeito e amor.


Ou seja, dizer “não” permite criar limites entre nós e os outros, porque se não formos nós a criar esses limites, estamos a convidar que sejam os outros a colocá-los por nós, a dizer se temos valor ou não, e se acharem que não somos bons o suficiente, então não se coíbem de nos dizer o que temos de ser, ter ou fazer para ter valor, aos seus olhos… mas esses outros olhos podem não ter o nosso melhor interesse em mente, ou mais comumente, podem eles também estar apenas a reproduzir o que lhes ensinaram, num clássico exemplo de “um cego a guiar outro cego”.


O “NÃO” é algo tão poderoso que muitas das minhas pacientes não conseguem sequer pensar em dizê-lo sem gerar angústia e sofrimento. É por isso mesmo que, por vezes, temos de começar com outra palavra mágica, igualmente poderosa, também ela de três letrinhas apenas: “SIM”!


Mas este é um “sim” diferente, é um “sim” a elas próprias, áquilo que querem para si: “sim, quero ter mais tempo para mim”; “sim, quero começar a cuidar de mim”; “sim, quero colocar as minhas necessidades à frente das dos outros sem me sentir culpada”; “sim, quero aprender a gerir o que sinto quando os outros discordam de mim”; “sim, quero dizer que “não” e sentir-me em paz comigo mesma”.


Aprender a dizer “sim” a nós próprios pode ser um processo revolucionário de libertação emocional e implica, paradoxalmente, dizer “não” aos outros e áquilo que preciso de mudar em mim. Dizer “sim” a mim é dizer, indiretamente, “não” às expectativas irrealistas dos outros; “não” aos meus hábitos disfuncionais; “não” às tradições inadequadas e ultrapassadas da sociedade".


Afinal, as mães têm escolha!


Mas os desafios, nomeadamente os sociais, não param de chegar.


Um dos principais desafios que as mães enfrentam na nossa sociedade atual é a falta de apoio e de políticas que valorizem o seu papel. Muitas mães sentem que têm de escolher entre cuidar dos filhos ou prosseguir as suas carreiras profissionais, sem ter a opção de fazer as duas coisas ao mesmo tempo (algo que partilham, aliás, com os homens, pais).


Outro desafio que as mães enfrentam é a discriminação no local de trabalho. Muitas empresas ainda não valorizam o trabalho das mães, oferecendo poucas opções de trabalho flexível ou benefícios para as famílias. Além disso, muitas mães ainda enfrentam preconceitos e estereótipos que dificultam a sua ascensão profissional.


Para além dos desafios anteriores, as mães solteiras, viúvas e algumas divorciadas com ex-maridos irresponsáveis, são ainda sobrecarregadas pela dificuldade acrescida que é criarem os seus filhos sozinhas, lutando por encontrar um trabalho digno que lhes permita cuidar e sustentar os filhos, enquanto mantêm a esperança, muitas vezes secreta, de um dia poderem voltar a constituir uma nova família.


No entanto, apesar de todos estes desafios, há muitas razões para ser otimista em relação ao futuro das mães.


Cada vez mais, as empresas e a sociedade estão começando a reconhecer o valor do trabalho das mães e a oferecer opções flexíveis de trabalho e benefícios para as famílias. Além disso, as mães continuam a unir-se para lutar pelos seus direitos e pelo reconhecimento do seu papel na sociedade.


Enquanto sociedade, temos a oportunidade de apoiar as mães em todas as suas contribuições e ajudá-las a superar os desafios que enfrentam. Precisamos valorizar o trabalho das mães em todas as suas formas e criar um ambiente em que elas possam prosperar e serem valorizadas pelas suas contribuições. Desta forma, podemos garantir que as mães continuem a ser a força motriz por trás do desenvolvimento e do sucesso das nossas famílias e comunidades.


Em resumo, ser mãe pode ser uma experiência gratificante e transformadora, mas também pode ser algo desafiador e cansativo. É fundamental que todos nós apoiemos as mães em todas as suas contribuições e que as mães tenham acesso a recursos e apoio para aprenderem a cuidar de si mesmas e a equilibrarem as suas múltiplas responsabilidades.


Com o apoio adequado, começando pelo suporte imprescindível de todas as outras mães, especialmente as da família e as amigas, as mães podem florescer em todas as áreas da vida e ajudar a criar um futuro melhor para si próprias, para as suas famílias e para a sociedade como um todo. Afinal, a mãe é e será sempre a pedra angular da família e um pilar fundamental da sociedade.


Um abraço com muita energia positiva para todas as mães!


João Pestana


Nota pessoal: apesar de todas as mães serem fantásticas, vão-me perdoar, mas o prémio para a Melhor Mãe do Mundo não poderia ser entregue a outra, que não fosse, a minha própria mãe. Parabéns, e obrigado, mãezinha!

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