Entre ciência, clínica e humanidade: o que trago de dois congressos de Psicologia
Nas últimas semanas tive a oportunidade de participar em dois congressos muito diferentes, separados por poucos dias, mas que acabaram por deixar em mim reflexões surpreendentemente próximas.

Primeiro, em Lisboa, no 10.º Congresso Internacional da European Society for Trauma and Dissociation (ESTD), dedicado ao trauma e à dissociação, onde apresentei uma comunicação sobre EFT/Tapping como ferramenta de regulação psicofisiológica e integração no tratamento do trauma.
Poucos dias depois, em Coimbra, participei no 7.º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses, desta vez apenas como participante.
Num congresso estava do lado de quem apresenta e expõe algumas das suas ideias ao olhar dos colegas. No outro, pude simplesmente sentar-me, ouvir, aprender, reencontrar pessoas e deixar-me interpelar pelas ideias dos outros.
Foram experiências diferentes. Mas regressei de ambas com uma sensação comum:
Sabemos cada vez mais sobre o funcionamento humano. E, ao mesmo tempo, quanto mais sabemos, mais percebemos quanto ainda existe por compreender.
Talvez esta seja uma das coisas mais fascinantes — e também mais exigentes — de ser psicólogo.
Uma profissão viva e com vontade de fazer a diferença
No Congresso da Ordem dos Psicólogos, aquilo que primeiro me marcou foi o dinamismo da profissão.
Foi muito bom ver tantos psicólogos de diferentes gerações e áreas de intervenção, o entusiasmo dos oradores e a vontade evidente de contribuir para melhorar a saúde psicológica da população.
Os grandes desafios da sociedade estavam presentes.
O acesso aos cuidados psicológicos. A saúde mental. A inteligência artificial e o seu possível impacto sobre o comportamento e o sofrimento humano. A investigação científica. As políticas públicas. A educação. As organizações. O papel dos psicólogos numa sociedade em rápida transformação.
O próprio programa do congresso refletia essa diversidade, colocando lado a lado os desafios contemporâneos, a relação entre investigação e prática e o contributo da Psicologia para o bem-estar individual e coletivo. Congresso Ordem dos Psicólogos
Foi igualmente muito bom reencontrar colegas que não via há algum tempo e criar novos contactos e amizades.
Porque os congressos também são isso. As conversas nos corredores. Os encontros inesperados. As ideias que continuam depois de uma conferência terminar. E, por vezes, são precisamente essas conversas que ficam conosco.
Psicólogos: temos também de fazer ouvir a nossa voz
Marcou-me particularmente a intervenção inaugural da Bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses, Dra. Sofia Ramalho. Uma intervenção com energia e entusiasmo, mas também com uma defesa muito clara da importância do papel dos psicólogos na sociedade.
A Psicologia pode contribuir para a saúde, para a educação, para as organizações, para as políticas públicas e para tantos outros contextos onde estão pessoas — e, portanto, onde existem comportamento, emoções, relações e tomada de decisão.
Mas continuam a existir constrangimentos importantes no acesso aos serviços de Psicologia, nomeadamente no Serviço Nacional de Saúde.
E existe ainda um caminho a percorrer para que a contribuição dos psicólogos seja devidamente valorizada pelos decisores políticos e pela sociedade.
Uma ideia semelhante surgiu também na intervenção de Eduardo Sá: talvez os psicólogos nem sempre sejam suficientemente afirmativos na defesa da sua profissão e do contributo que têm para oferecer. Fez-me pensar. Somos mais de 28 mil membros registados na Ordem dos Psicólogos Portugueses. Ordem dos Psicólogos
É uma comunidade profissional considerável.
Mas será que a nossa voz coletiva tem uma presença proporcional a esse número?
Talvez tenhamos também a responsabilidade de participar mais no debate público. Não apenas para defender interesses profissionais, mas para levar conhecimento psicológico para as grandes questões da sociedade.
Porque a Psicologia tem muito para dizer.
A Psicoterapia funciona. Mas sabemos exatamente porquê?
Entre as comunicações a que assisti, uma das que mais me interessou foi a do Professor Pim Cuijpers, um dos investigadores de referência internacional na investigação em psicoterapia.
Uma das mensagens que retirei da sua intervenção foi tranquilizadora e importante:
as intervenções psicológicas funcionam.
A investigação acumulada mostra que podem produzir melhorias significativas no sofrimento psicológico e que, em muitas situações, devem ocupar um lugar central na resposta aos problemas de saúde mental. Nos quadros mais graves, a combinação com tratamento farmacológico pode também desempenhar um papel importante.
Mas houve outra dimensão da sua intervenção — e das conversas que se seguiram — que me interessou ainda mais. Sabermos que uma intervenção funciona não significa necessariamente compreendermos completamente porque funciona.
E esta diferença é enorme.
O que é, afinal, que produz mudança numa psicoterapia?
Quando uma pessoa melhora em psicoterapia, o que foi determinante?
Foi uma determinada técnica?
Foi aquilo que compreendeu sobre si própria?
Foi aprender uma nova forma de regular uma emoção?
Foi a relação estabelecida com o terapeuta?
Foi sentir-se finalmente ouvida?
Foi perceber que podia contar uma experiência dolorosa sem ser julgada?
Foi o tom de voz do psicólogo?
A expressão do rosto?
Um sorriso num determinado momento?
A sensação de segurança?
A experiência de aceitação?
Provavelmente, em muitos casos, foram várias destas coisas ao mesmo tempo.
E é aqui que a investigação se confronta com uma dificuldade extraordinária.
Podemos estudar a aliança terapêutica, a empatia, as expectativas, técnicas específicas, diferentes protocolos e muitos outros fatores. Podemos fazer ensaios clínicos, estudos de mediação, estudos de componentes e investigação de processo. Mas isolar completamente cada ingrediente de uma interação humana e determinar exatamente quanto contribuiu para a mudança é extraordinariamente difícil.
Uma relação terapêutica não é uma molécula que conseguimos dividir facilmente nas suas partes constituintes. A qualificação e a competência técnica do psicólogo são naturalmente fundamentais. Mas não são suficientes. Existe também a pessoa que está diante da pessoa.
E existe uma relação entre ambas.
A humildade de dizer “ainda não sabemos”
Talvez tenha sido este um dos momentos intelectualmente mais interessantes destes dias.
Escutar investigadores com carreiras dedicadas à Psicoterapia reconhecerem, com naturalidade, os limites do conhecimento disponível.
Pode parecer paradoxal.
Estamos habituados a associar autoridade científica a respostas.
Mas talvez uma das características de uma ciência madura seja precisamente a capacidade de dizer:
“Isto sabemos.”
“Isto pensamos que sabemos.”
“E isto ainda não conseguimos explicar.”
Não diminui a ciência.
Pelo contrário.
Torna-a mais credível.
Alguns dias antes, tinha ouvido algo muito semelhante sobre EMDR
Esta reflexão fez-me regressar imediatamente ao congresso da ESTD, em Lisboa.
Numa das conferências, Olivier Piedfort-Marin, atual presidente da EMDR Europe, abordou a utilização do EMDR em perturbações dissociativas. A própria apresentação pública da sua keynote sublinhava a necessidade de humildade perante a complexidade destes casos, a importância da regulação do próprio terapeuta e a necessidade de adaptar o tratamento a cada pessoa, descrevendo-o quase como uma intervenção de haute couture clínica.
E recordo-me particularmente de uma ideia que repetiu durante a sua intervenção.
Sabemos que o EMDR pode ajudar muitas pessoas. Mas continuamos a discutir exatamente porque funciona. O movimento ocular e a estimulação bilateral parecem quase desconcertantemente simples quando comparados com a complexidade das experiências que podem estar a ser processadas.
E, no entanto, há resultados clínicos e investigação que justificam a sua utilização.
Mais uma vez: efeito e mecanismo não são exatamente a mesma pergunta.
E o que significa tudo isto para o EFT?
Naturalmente, esta questão toca diretamente numa área a que tenho dedicado muitos anos: o EFT/Tapping.
Na minha prática clínica, e na de outros psicólogos e terapeutas, observamos que o EFT pode ser particularmente útil na regulação da ativação psicofisiológica associada a experiências emocionalmente perturbadoras.
Existem hoje estudos científicos que vão para além dos relatos de caso e que investigam os seus resultados clínicos e possíveis mecanismos.
Parte dessa evidência foi precisamente aquilo que procurei apresentar no Congresso da ESTD. Mas permanecem perguntas.
Por que razão funciona o tapping?
Que parte do efeito resulta da exposição ou da ativação da experiência emocional?
Que parte resulta da estimulação somática rítmica?
Que papel desempenham a atenção, a expectativa, a relação terapêutica, a regulação autonómica ou outros processos?
Ao longo dos anos têm sido propostas explicações muito diferentes, desde hipóteses relacionadas com sistemas energéticos até modelos psicológicos, neurobiológicos e psicofisiológicos. Algumas têm atualmente mais suporte empírico do que outras.
Mas seria prematuro afirmar que possuímos uma explicação definitiva.
E, curiosamente, talvez isso coloque o EFT numa questão muito mais ampla do que o próprio EFT:
Na Psicologia, podemos conhecer o efeito de uma intervenção antes de compreendermos completamente todos os mecanismos que produzem esse efeito.
Isso não significa que devamos aceitar qualquer intervenção apenas porque alguém afirma que funciona.
Precisamos de investigação.
Precisamos de replicação.
Precisamos de comparação.
Precisamos de estudar riscos e limitações.
Precisamos de perguntar quais os componentes ativos e para quem determinada intervenção pode — ou não — ser adequada.
Mas também precisamos de espaço para investigar aquilo que ainda não compreendemos completamente.
O corpo como parte da história
Foi precisamente isso que o Congresso da ESTD me voltou a recordar.
Estar com profissionais que trabalham com trauma e dissociação e contactar com abordagens somáticas, neurofeedback, psicodrama e diferentes formas de regulação trouxe-me novamente a uma ideia que acompanha o meu percurso profissional há muitos anos:
O corpo não é apenas o palco onde o sofrimento emocional se manifesta. Pode também fazer parte do processo através do qual esse sofrimento é regulado, processado e integrado.
O workshop de Manuela Maciel sobre o transgeracional, por exemplo, fez-me recordar os primeiros anos depois da licenciatura, quando tive algum contacto com psicodrama e arteterapia.
Mais tarde, quando trabalhava em psico-oncologia na Associação Oncológica do Algarve, lembro-me de pensar como poderia ser interessante recorrer ao psicodrama para ajudar alguns pacientes a expressar e regular emoções associadas à doença.
A vida profissional levou-me depois para outros caminhos, entre eles o EFT.
Mas o princípio subjacente manteve-se.
Corpo e mente não vivem separadamente.
Trauma, ativação e proteção
No trabalho com trauma esta relação torna-se especialmente evidente.
Quando uma experiência ultrapassa aquilo que conseguimos tolerar ou processar, o organismo procura formas de proteção.
Em algumas situações, uma dessas respostas pode ser a dissociação. Em vez de a entendermos simplesmente como resistência ou como algo que a pessoa deveria conseguir ultrapassar, podemos procurar compreender a função que teve: de que sofrimento esteve esta resposta a proteger a pessoa?
Daqui surge um dos grandes paradoxos do tratamento do trauma.
Para processarmos uma experiência difícil, precisamos de conseguir entrar de algum modo em contacto com ela. Mas esse contacto produz ativação.
E se essa ativação for excessiva, podemos voltar à inundação emocional, ao evitamento ou à dissociação.
Daí a questão que esteve no centro da minha comunicação na ESTD:
Como podemos ajudar alguém a contactar com aquilo que o perturba sem que seja novamente dominado pelo que sente?
Encontrar o equilíbrio entre ativação e regulação talvez seja uma das chaves para compreender muitas intervenções contemporâneas no trauma.
Inovação sem perder o rigor
Talvez os dois congressos me tenham deixado precisamente aqui.
De um lado, uma profissão que se quer cada vez mais baseada em evidência e capaz de demonstrar o seu valor à sociedade.
Do outro, a consciência de que o sofrimento humano continua a desafiar as fronteiras dos nossos modelos.
Não vejo contradição entre estas duas posições. Pelo contrário.
Precisamos de rigor precisamente para podermos inovar.
E precisamos de inovação porque ainda existem muitas pessoas para quem aquilo que já temos disponível não é suficiente. A resposta não será abandonar aquilo que sabemos.
Mas também não poderá ser acreditar que já sabemos tudo.
Sabemos muito. E ainda temos muito por descobrir.
Foi talvez esta a principal mensagem que trouxe comigo de Lisboa e Coimbra.
A Psicologia avançou extraordinariamente. Temos investigação robusta a demonstrar que as intervenções psicológicas podem melhorar vidas. Compreendemos cada vez melhor o trauma, as emoções, a cognição, as relações e a influência do contexto sobre o nosso funcionamento.
Mas trabalhamos com algo extraordinariamente complexo: seres humanos.
Com histórias diferentes.
Corpos diferentes.
Relações diferentes.
Experiências diferentes.
Formas diferentes de sofrer e de recuperar.
Por isso, talvez a ciência psicológica precise simultaneamente de confiança e humildade.
Confiança para afirmar aquilo que sabemos e defender o lugar da Psicologia na sociedade.
Humildade para reconhecer aquilo que ainda não conseguimos explicar.
Curiosidade para continuar a investigar.
E coragem para fazer novas perguntas.
Foi bom regressar destes dois congressos com conhecimento. Mas foi igualmente importante regressar com perguntas.
Continuarei a procurar respostas e a contribuir, à minha maneira, para esta conversa.
Porque talvez seja isso que nos faz avançar: sabermos cada vez mais, sem perdermos a capacidade de reconhecer tudo aquilo que ainda não sabemos.
Dr. João Pestana



Muito obrigada Dr João, por esta partilha tão enriquecedora.
Bem haja🙏