Parte 2 — Diagnosticar depressão sem exames: o que isto revela sobre a forma como entendemos o sofrimento.
- há 6 dias
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A depressão é frequentemente apresentada como uma doença médica, comparável a diabetes, hipertensão ou cancro. Mas, ao contrário dessas condições, não existe qualquer exame que permita confirmar o diagnóstico. Não há análises ao sangue, marcadores biológicos, testes de imagem ou medições fisiológicas que indiquem que alguém “tem depressão”. O diagnóstico é feito exclusivamente através de questionários e entrevistas clínicas.
Esta realidade levanta questões profundas sobre a forma como a sociedade, a medicina e a psiquiatria interpretam o sofrimento humano. E é precisamente essa reflexão que este segundo artigo sobre a depressão explora — se ainda não o fez, poderá ler o primeiro artigo aqui.
Como se diagnostica a depressão
O diagnóstico da depressão baseia‑se em listas de sintomas, como tristeza persistente, perda de interesse, alterações de peso ou do sono, fadiga, dificuldade de concentração ou sentimentos de culpa.
Estes sintomas são avaliados através de:
entrevistas clínicas
questionários padronizados
relatos subjetivos da própria pessoa
Isto significa que duas pessoas com histórias de vida completamente diferentes, causas diferentes e necessidades diferentes podem receber o mesmo diagnóstico apenas porque assinalam um conjunto semelhante de sintomas.
Cuidado com os números: testes online podem duplicar os casos de depressão
Os testes de rastreio online para depressão — como o PHQ‑9 — popularizaram-se nos últimos anos e são ferramentas úteis para detectar sintomas, acompanhar mudanças ao longo do tempo e alertar para possíveis problemas. Eu próprio utilizo regularmente na minha prática clínica alguns destes instrumentos com os meus pacientes. Por exemplo, se quiser explorar uma escala semelhante, que avalia os níveis de ansiedade, depressão e stress, chamada EADS‑21/DASS‑21, pode fazê-lo de forma segura e fidedigna AQUI.
O principal problema do uso amplo e isolado destas escalas fora de um contexto clínico ou de investigação é que elas tendem a sobrestimar de forma significativa a presença de depressão. Frequentemente produzem valores muito superiores à prevalência de depressão clinicamente diagnosticada, chegando por vezes a sugerir o dobro dos casos (por exemplo, 25% vs. 12%). Isso acontece porque estas escalas captam muitos falsos positivos, sobretudo em preenchimentos online feitos por curiosidade, autoconsciência momentânea ou períodos de stress pontual. O resultado é uma impressão de “epidemia” maior do que a realidade clínica — embora os sintomas relatados sejam reais e mereçam atenção adequada.
Investigadores como Brooke Levis e Brett Thombs têm mostrado, desde 2020, que parte deste aumento observado em inquéritos digitais resulta de rastreios mais acessíveis, rápidos e menos rigorosos do que uma avaliação profissional.
Em Portugal, por exemplo, o Estudo Nacional de Saúde 2025 da Marktest para a Medicare indica que cerca de 35% das pessoas entre os 18 e os 64 anos referiram sintomas de ansiedade, depressão, burnout ou semelhantes nos últimos 12 meses. É um sinal preocupante, associado a fatores como stress laboral, pandemia, incerteza económica e impacto das redes sociais.
Mas estes números não significam que todas essas pessoas tenham uma perturbação clínica que exija diagnóstico formal ou tratamento estruturado.
Os questionários de autoavaliação são sempre um ponto de partida, não um diagnóstico. Eles ajudam a sinalizar que algo pode não estar bem, mas não determinam se existe depressão, ansiedade ou qualquer outra perturbação clínica. Funcionam como um alerta inicial, útil para perceber que vale a pena procurar ajuda, mas não têm a precisão de uma avaliação feita por um profissional de saúde mental.
Os testes de rastreio podem, portanto, indicar a presença de sintomas, mas apenas um profissional consegue confirmar se esses sinais correspondem realmente a depressão ou a outro quadro específico, avaliando intensidade, duração, impacto no dia a dia e outros fatores que os questionários não conseguem captar.
Mas mesmo quando a avaliação é realizada por um profissional de saúde mental, seja ele psiquiatra, psicólogo ou enfermeiro, é preciso perceber que...
...não existe nenhum teste fisiológico que confirme ou refute o diagnóstico de depressão!
O contraste com outras áreas da medicina
Em praticamente todas as outras especialidades médicas, o diagnóstico depende de evidência objetiva. Um oncologista não diagnostica cancro com base num questionário. Um cardiologista não diagnostica insuficiência cardíaca apenas porque alguém diz sentir cansaço. Um endocrinologista não diagnostica diabetes sem análises.
A ausência de exames na depressão cria um paradoxo:
A depressão é frequentemente descrita como uma doença biológica.
Mas não existe qualquer marcador biológico que a identifique.
Ainda assim, o tratamento mais comum envolve substâncias químicas com efeitos reais no corpo.
Este paradoxo não invalida o sofrimento das pessoas — mas mostra que o modelo biomédico não explica tudo o que está a acontecer.
O que isto revela sobre o modelo psiquiátrico atual
A psiquiatria — e em grande parte a psicologia clínica também — tentam enquadrar experiências humanas complexas dentro de categorias diagnósticas. Isto tem vantagens práticas — permite organizar informação, comunicar entre profissionais e orientar intervenções.
Mas também tem limitações importantes:
Os diagnósticos são construções, não descobertas biológicas.
As categorias são amplas e heterogéneas.
Pessoas muito diferentes acabam agrupadas sob o mesmo rótulo.
O diagnóstico não revela a causa do sofrimento, apenas descreve sintomas.
Isto significa que a depressão não é identificada da mesma forma que uma infeção ou uma doença autoimune. É uma descrição, não uma explicação.
O impacto desta abordagem na vida das pessoas
Receber um diagnóstico pode trazer alívio — dá nome ao que se sente. Mas também pode trazer confusão ou até desresponsabilização involuntária, quando a pessoa passa a acreditar que o seu sofrimento é um defeito interno, e não uma resposta compreensível a circunstâncias difíceis.
Além disso, quando o diagnóstico é feito sem exames, a pessoa pode sentir:
que o seu sofrimento foi reduzido a uma lista de sintomas
que a sua história de vida não foi verdadeiramente considerada
que o tratamento será padronizado, e não personalizado
que a complexidade da sua experiência foi simplificada em excesso
E isto pode afastar a pessoa das verdadeiras causas do seu sofrimento.
Porque continuamos a diagnosticar assim
Há várias razões pelas quais o diagnóstico da depressão continua a ser feito sem exames:
Não existe um marcador biológico conhecido que permita identificar a condição.
O sofrimento humano é multifatorial, e não se reduz facilmente a medidas laboratoriais.
O modelo biomédico tornou‑se dominante, mesmo quando não se ajusta totalmente ao fenómeno.
A indústria farmacêutica beneficiou de diagnósticos amplos, que facilitam a prescrição de medicamentos.
A sociedade procura explicações rápidas, e diagnósticos simplificados oferecem essa sensação de clareza, ao mesmo tempo que impedem um olhar mais crítico sobre a estrutura social e económica vigente.
Mas esta abordagem tem custos — sobretudo quando leva a tratamentos que não consideram a história, o contexto e as necessidades individuais.
O que isto nos diz sobre a depressão
A ausência de exames não significa que a depressão não seja real. Significa que:
não é uma doença biológica no sentido tradicional
não tem uma causa única
não pode ser reduzida a química cerebral
é profundamente influenciada por fatores de vida, relações, trauma e contexto
exige uma compreensão mais ampla do que a oferecida por questionários
A depressão é uma experiência humana complexa, não um defeito que possa ser isolado num laboratório.
Para onde isto nos leva
Se o diagnóstico não revela a causa, então a pergunta mais importante não é “Tenho depressão?”, mas sim:
“O que é que, na minha vida, na minha mente, no meu corpo, na minha história ou nas minhas relações está a pedir atenção?”
No próximo artigo, vamos aprofundar a questão da eficácia dos antidepressivos e os riscos associados — um tema essencial para compreender como chegámos ao modelo atual e porque tantas pessoas continuam a não encontrar alívio para o seu sofrimento.
Deixe o seu comentário em baixo e partilhe esta informação com outras pessoas que dela possam beneficiar.
Dr. João Pestana

Inquestionável lucidez!